Mamãe é daquelas que advertem: toma cuidado, se não tu cai no buraco. E eu sou daqueles que não ouvem: já ouvi, mas continuo por aqui. Foi assim desde a infância. Meus bonecos sempre quebrados, partidos, mordidos. As peças sempre em pedaços, braços arrancados, armaduras engolidas. Não adiantava falar, gritar, ameaçar, o próximo brinquedo terminaria igual ao anterior: desvencilhado. Minhas bicicletas eram revisadas toda semana. Nos domingos, para ser mais exato, quando papai não tinha trabalho nem pescaria, nem futebol, nem corrida na praia, nem “cochilos para regulagem de sono semanal”, era assim que ele nomeava as manhãs de sábado. Os defeitos mais comuns eram jante empenada, prego que furava a “câmera de ar”, guidom em “desacordo” com o pneu dianteiro e até quadro torto. Meu pai enrubescia de raiva quando eu chegava na garagem com minha “caranga” toda lascada de queda que eu dava. Mas mesmo assim ia comigo no borracheiro ver que tal problema era o da vez. O medo dele era eu crescer e continuar destruidor e “maluvido”. Juro que não destruía meus brinquedos por querer, não. Ia brincar, tentar descobrir como e do que era feito, mas quando dava por mim, tava um pedaço em cada mão. Quando mais crescido, inventava de dar em cima das menininhas. Aliás, de uma só: Rosinha. Foi um romance muito sofrido, esse. Era um vai e volta, um puxa de cá, encolhe de lá, e nunca dava certo. Ela me trocou por outro mais de dez vezes. Eu sempre voltava pra enxugar as lágrimas dela quando os outros fulanos terminavam o namoro e a deixavam desolada. Foi assim por um longo tempo, até que conheci Maria. Maria era linda, jamais pensei que fosse se interessar por mim. Mas ela se interessou e eu não quis. Isso já foi nos tempos de faculdade, lá em Recife, eu estudava arquitetura, ela cinema. E pense num cinema bom da gota. Ela dominava todos os segredos de luz, interpretação, entonação de voz... Tudo. Ela só não descobriu um: o do meu coração. Lá era a casa de Rosa, onde tinha tudo o que ela sonhava: uma parede com retrato do pessoal de São José, uma sala mobiliada com os móveis iguais da casa de Tereza, uma televisão grande para assistir a novela e até um centro de vidro. Maria era maravilhosa, mas não batia Rosa. Todos altos e baixos, digo, todos os baixos da nossa relação foram únicos. Muitos ficaram com Rosa, mas só eu que escrevi uma história com ela. Certo que parava e escrevia, parava e escrevia, parava e escrevia, mas escrevi. Hoje não me restou nem Rosa nem Maria, nem boneco nem bicicleta, só Mãe e Pai martelando no meu ouvido que eles estavam certos: Caí no buraco porque continuei “maluvido”.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

bacana o texto,valew pela visita :o) e pelo link
ResponderExcluirbreve t linko tb o/
Lindo texto.
ResponderExcluirAcho que todo mundo tem sua Rosinha na vida. Podem aparecer milhões de Marias, mas a Rosinha é quem fica.
Sempre.
quero muito ouvir essa história da boca dos autores... repito: orgulho!
ResponderExcluir