quarta-feira, 31 de março de 2010

Am...

De primeira talvez tenha sido, de fato, um desejo o que aflorou, mas ao segurares minha mão, quando eu menos esperava, algo foi mudando. Uma relação de confiança, apego, colo foi crescendo. Era como ir todo dia ao abatedouro e encontrar um pasto verde com bastante grama. Dia após dia em um ano inteiro você me mostrou que era possível sim esquecer que pertencíamos a sexos diferentes, que o que pensávamos valia mais que qualquer outra coisa, que um abraço mexia mais que um beijo. Todos os presentes que um dia pensastes em me dar, couberam em cada sorriso que recebia pela manhã. Só de ouvir tua voz, meu coração se sentia em casa, e só de me veres respondendo ao teu afeto, tenho certeza que tu também esquecia o mundo lá fora, aquele cheio de problemas. Era como se, ao nos vermos, encontrássemos as soluções para tudo que nos perturbava, mesmo que um não soubesse o que dizer ao outro. Bastava apenas sentar junto e olhar para o chão, o chão que muitas vezes serviu de palco para nossas conversas telepáticas. Chegava a ser bizarro certas vezes, pois a piada viajava de dentro da tua cabeça direto para dentro da minha e só nós ríamos, gargalhadas infinitas, posso dizer. Ao chegar nesse ponto, esqueci o que empulsionou a nossa relação e de verdade, não importa mais porque ao te rever depois de um tempo foi como se os meses não tivessem passado, como se ainda estivéssemos naquela velha arquibancada de cimento fazendo nosso lanche matinal de pão de frango versus pão italiano. E, ao saber hoje à noite que amanhã pela manhã não segurarais mais minha mão, o coração se espreme dentro do peito, creio ser de saudade, é essa a palavra que usam, mas espero que seja de esperança de um dia poder te abraçar e te fazer sorrir de novo.

terça-feira, 23 de março de 2010

Teimosia

Mamãe é daquelas que advertem: toma cuidado, se não tu cai no buraco. E eu sou daqueles que não ouvem: já ouvi, mas continuo por aqui. Foi assim desde a infância. Meus bonecos sempre quebrados, partidos, mordidos. As peças sempre em pedaços, braços arrancados, armaduras engolidas. Não adiantava falar, gritar, ameaçar, o próximo brinquedo terminaria igual ao anterior: desvencilhado. Minhas bicicletas eram revisadas toda semana. Nos domingos, para ser mais exato, quando papai não tinha trabalho nem pescaria, nem futebol, nem corrida na praia, nem “cochilos para regulagem de sono semanal”, era assim que ele nomeava as manhãs de sábado. Os defeitos mais comuns eram jante empenada, prego que furava a “câmera de ar”, guidom em “desacordo” com o pneu dianteiro e até quadro torto. Meu pai enrubescia de raiva quando eu chegava na garagem com minha “caranga” toda lascada de queda que eu dava. Mas mesmo assim ia comigo no borracheiro ver que tal problema era o da vez. O medo dele era eu crescer e continuar destruidor e “maluvido”. Juro que não destruía meus brinquedos por querer, não. Ia brincar, tentar descobrir como e do que era feito, mas quando dava por mim, tava um pedaço em cada mão. Quando mais crescido, inventava de dar em cima das menininhas. Aliás, de uma só: Rosinha. Foi um romance muito sofrido, esse. Era um vai e volta, um puxa de cá, encolhe de lá, e nunca dava certo. Ela me trocou por outro mais de dez vezes. Eu sempre voltava pra enxugar as lágrimas dela quando os outros fulanos terminavam o namoro e a deixavam desolada. Foi assim por um longo tempo, até que conheci Maria. Maria era linda, jamais pensei que fosse se interessar por mim. Mas ela se interessou e eu não quis. Isso já foi nos tempos de faculdade, lá em Recife, eu estudava arquitetura, ela cinema. E pense num cinema bom da gota. Ela dominava todos os segredos de luz, interpretação, entonação de voz... Tudo. Ela só não descobriu um: o do meu coração. Lá era a casa de Rosa, onde tinha tudo o que ela sonhava: uma parede com retrato do pessoal de São José, uma sala mobiliada com os móveis iguais da casa de Tereza, uma televisão grande para assistir a novela e até um centro de vidro. Maria era maravilhosa, mas não batia Rosa. Todos altos e baixos, digo, todos os baixos da nossa relação foram únicos. Muitos ficaram com Rosa, mas só eu que escrevi uma história com ela. Certo que parava e escrevia, parava e escrevia, parava e escrevia, mas escrevi. Hoje não me restou nem Rosa nem Maria, nem boneco nem bicicleta, só Mãe e Pai martelando no meu ouvido que eles estavam certos: Caí no buraco porque continuei “maluvido”.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Analise.

Um dia foi-me proposto uma aventura. Talvez por medo, por falta de maturidade resolvi desistir antes mesmo de começar. Digo, até comecei, fui até a metade, parei e voltei ao começo tentando fingir que nada tinha acontecido. Foi quase um “ctrl+z” que não deu certo. Por vezes repeti esse erro, e o seguinte: me arrepender de tê-lo cometido. Antes tivesse errado e reafirmado que estava certo, mas não. Minha teimosia de estar contra mim mesmo o tempo todo me fez errar cada vez mais. O mesmo erro seguido do mesmo erro. Meu saldo ao fim dessa confusão? Cortei corações. Não só o meu, meus caros, como de pessoas que jamais mereciam ter o coração cortado. E suponho que o que mais doeu nessas pessoas não foi ter o coração partido de fato, mas sim quem o fez. Talvez se os meus amores não me amassem tanto, eu não os teria marcado profundamente com a temida estaca da decepção. Talvez, quem sabe, eu teria sofrido por não ser amado de volta. Dessas aventuras vividas pela metade só me restou a lição de ter, pelo menos, consideração a quem me entregou seu coração.

terça-feira, 2 de março de 2010

Como entrar para a História

Quer entrar para história? Crie uma teoria revolucionária que vá de encontro a todas as outras, e escreva um livro para explicá-la. Invente uma fórmula, nem que seja uma baseada no movimento dos pombos à mesa. Enxergue o óbvio, se tornando assim um herói. Ou ainda escreva sonhos saudosos, muitos deles, repetidas vezes. Porém seja em todas essas o pioneiro. Ou simplesmente... mate pessoas.